terça-feira, 17 de setembro de 2013

Plasticidade neural e você: tudo a ver!




O que a plasticidade neural tem a ver com você? Isso não é assunto só para neurocientistas e estudiosos do comportamento?  Por que eu devo saber sobre isso?

Quando a gente ouve ou lê essas terminologias, a gente nem dá muito ouvidos porque erroneamente achamos que isso não é um conhecimento importante. A gente logo pensa, "em que eu vou usar essa tal plasticidade neural no meu dia?", e como não sabemos a resposta, não atribuímos importância ao assunto deixando-o de lado. Mas hoje eu quero que entenda o que isso tem a ver com você e a relação que há com nosso comportamento.

Antes de mais nada você precisa saber o que é plasticidade neural:

É a capacidade que o cérebro tem de desenvolver novas conexões (neuronais) a partir de uma experiência, ou um comportamento do indivíduo. Isso quer dizer que o cérebro apresenta uma certa flexibilidade diante de estímulos por ele experimentados, fazendo com que ocorram novas conexões sinápticas entre os neurônios. Isso nos revela que o cérebro não é imutável e por que novos comportamentos são aprendidos.

A plasticidade neural é muito estudada nos processos de reabilitação, como por exemplo, pessoas que ficaram com sequelas cerebrais ocasionadas por acidentes, por derrame cerebral, alzheimer, parkinson, e qualquer outro tipo de lesão cerebral.

Mas não quero me ater nesses casos específicos. Quero falar do conceito da plasticidade de uma maneira mais abrangente. Se a plasticidade neural organiza e localiza novos processos de informação em cérebros lesionados, quer dizer que isso é uma atribuição do cérebro, e que o mesmo pode ocorrer com todos os indivíduos.

Lendo o conceito acima, é possível entender um pouco o que essa plasticidade tem em relação ao que fazemos. Repetindo a  conceituação, ela diz que o cérebro tem a capacidade de desenvolver novas conexões a partir de uma experiência, ou um comportamento do indivíduo. Geralmente, nós culpamos o cérebro pela maioria das alterações que ele manifesta em nosso comportamento: "eu tenho esse medo, porque meu cérebro 'criou' isso em mim". Não é essa a ordem que associamos ao nosso comportamento? Cérebro manda em meu comportamento (assim generalizamos). Só que através do conceito de plasticidade neural, é possível perceber que não é sempre assim. O seu comportamento pode "mandar" ou ditar as reações e sensações que seu cérebro vai emitir.  Os nossos pensamentos e emoções agem sobre o cérebro afetando suas conexões, funções e estrutura. Compreende agora por que a compreensão acerca desse tema tem importância para nós? Quer um exemplo? Experimente ficar triste por longas horas, dias, ou de forma recorrente. Seu cérebro vai emitir impulsos que alterarão a neuroquímica por ele transmitida, apresentando uma queda de neurotransmissores como a serotonina e dopamina (relacionadas ao prazer), causando um círculo de tristeza-respostacerebral-tristeza.  É por essa razão que a depressão acarreta uma alteração química no cérebro. Nesse caso não foi a alteração de impulsos químicos que causou a tristeza, mas o contrário, a tristeza causou no cérebro a alteração neuroquímica. Mas como se originou a tristeza? Pensamentos, meu caro Watson. rsrs. Foram os seus pensamentos associados a outras emoções. (Mas isso é assunto para outro post).

O medo patológico, que é quando o cérebro associa um estímulo a uma sensação de pavor e pânico, também faz com que ele responda com reações neuroquímicas e fisiológicas a esse comando.
O mesmo se explica em relação ao uso de drogas que causam a dependência química. É a flexibilidade que o cérebro tem de responder aos estímulos por ele oferecidos. O cérebro apresenta certo desenvolvimento de conexões neuronais.

- Mileni, então o que você está querendo me dizer é que o que eu faço interfere nos processos neuronais do meu cérebro, e não ele que interfere no que eu faço?
- O que estou dizendo é que o que fazemos interfere nas conexões que nosso cérebro emite e que o que ele emite interfere naquilo que fazemos e sentimos. O que eu quero que você entenda, é que a responsabilidade não é dele sozinho. Existe uma correlação entre fatores comportamentais e circuitos neurais. 

Por exemplo, quando nós fazemos atividade física estamos oferecendo ao nosso cérebro estímulos que fazem com que ele responda com uma série de neurotransmissores que nos dão a sensação de disposição, ânimo e bem-estar. Se você mantiver uma frequência de exercícios físicos, seu cérebro também se habituará a esse estímulo, e a sensação de ânimo e disposição não serão somente momentâneas, mas prolongadas.

A interação organismo-ambiente também diferencia e molda os circuitos neurais, que caracterizam a plasticidade e a individualidade neural do organismo. (E.A. Ferrari).

Mas em que isso pode me ajudar? Saber disso pode nos ajudar a identificar se estamos oferecendo os estímulos ideais ao nosso cérebro. Estamos oferecendo bons hábitos, bons pensamentos e criatividade, ou estamos oferecendo a ele experiências nocivas e repetitivas? Compreender a plasticidade neural é compreender que comportamento e ambiente podem mudar circuitos neurais.

Se não fosse assim, não seria possível controlarmos a resposta que nosso cérebro ativa sobre algum medo irracional, ou as psicoterapias não apresentariam eficiência. Esse conhecimento é um avanço extraordinário para a neurociência (e também para todos, meros leigos), embora muitos estudos ainda sejam necessários. Portanto, vamos parar de culpar o cérebro e vamos colaborar com ele, oferecendo-o estímulos novos e saudáveis, pois através da plasticidade neural nosso cérebro mostra que ele se adapta aquilo que o apresentamos e estimulamos nele.




Abração, pessoal.
Mileni




Nenhum comentário:

Postar um comentário