sábado, 15 de fevereiro de 2014

Dependência afetiva





Muitos de nós já ouvimos falar sobre esse termo "dependência afetiva", mas na maioria das vezes não sabemos reconhecer um dependente afetivo, ou, se nós mesmos somos um. É importante identificar emoções que podem nos levar a cair em "armadilhas" que nós mesmos criamos, e também para sairmos desse tipo de situação caso já estejamos dentro dela.

A dependência afetiva tem sua origem na nossa história emocional pregressa, que começou a ter um enredo ainda na infância, mais especificamente, na relação que estabelecemos com nossos pais e demais pessoas de influência emocional em nossas vidas. Todas as pessoas na infância desenvolvem uma dependência afetiva muito grande em relação aos seus pais (ou cuidadores), sendo isso benéfico e necessário à nossa saúde física e psíquica. São eles que nos atendem em nossas necessidades básicas. São também eles que nos protegem e nos transmitem os recursos necessários para que nos sintamos confortáveis, amados e protegidos. Com o passar dos anos essa dependência vai se dissolvendo, passamos a estruturar nossas emoções e na vida adulta lidamos de forma mais madura em relação ao outro. Desta forma, desenvolvemos uma autoestima saudável, autoconfiança e segurança suficientes para nos equilibrarmos entre emoções positivas e negativas, e entre a aprovação e a rejeição que futuramente tenhamos que lidar.



Quando essa dependência afetiva vivida na infância não é bem elaborada e amadurecida, trazemos ela para a nossa vida adulta, ou seja, para as nossas relações do cotidiano, podendo acarretar o desequilíbrio ou a sobrecarga dessas relações, pois segue-se estabelecendo relações afetivas onde predominam a dependência e a insegurança.

Como identificar um dependente afetivo?

Ele depende do outro para que se sinta seguro e amado, ou seja, se esse outro se ausentar ele perde toda sua segurança, seu suporte, e perde também sua estrutura emocional, pois suas emoções estão vinculadas a este que foi considerado um "tutor" de seu equilíbrio emocional. O dependente afetivo é também desconfiado e enciumado.

A dificuldade em  identificar o dependente afetivo se encontra no discurso do amor apresentado por ele, pois as pessoas confundem dependência de afetos com amor,  um conceito de "fusão" trazido de sua história de vida da infância.
O amor traz sim alegria, segurança, prazer, satisfação, mas se você precisa da presença desse amor para se sentir seguro, protegido e ter bem-estar, não o atingindo quando está sozinho, você muito provavelmente esteja vivendo uma dependência afetiva.

Vamos exemplificar pensando nas relações entre casais.

- Imagine um casal que se relaciona bem e com amor. A companhia deles é agradável entre si, eles se apreciam e gostam de ficar juntos. Entretanto, uma das partes só 'vê graça' quando está na companhia de seu parceiro. Ele não se sente motivado em fazer outras atividades (exceto o trabalho) em que o parceiro não esteja. Para essa pessoa, estar bem é estar na companhia do seu par.

Esse exemplo, aparentemente bonito e romântico, em que a maioria das pessoas não vê mal algum, esconde uma dependência afetiva. Esse nível de dependência não é claramente nociva aos olhos das pessoas. Para você entender melhor, pense em dois tipos de dependência química: a desenvolvida pelo uso do crack, e a desenvolvida pelo uso do cigarro. As duas são formas diferentes de dependência, mas as pessoas só consideram grave e nocivo aquele que é dependente do crack, certo? O cigarro é nocivo sim, porém de forma lenta e progressiva. Esse tipo de dependência emocional de que falo, equivale à dependência ao cigarro. (Utilizei aqui apenas uma hipótese ilustrativa para melhor compreensão. Não estou atribuindo relação entre dependência afetiva e química, embora muitos autores vejam dessa forma).

A companhia do nosso parceiro deve sim nos proporcionar alegria, satisfação, prazer e segurança, e não há mal algum nisso,  mas a nossa PRÓPRIA companhia também deve nos proporcionar esse mesmo bem-estar. Não só a nossa companhia, mas também a de nossos amigos e demais familiares. Quando não estamos na presença do nosso par, também devemos nos sentir apreciados e seguros. Se isso não acontece, estamos diante de um caso de dependência afetiva.

- Agora imagine um casal que vive o oposto do exemplo anterior. Eles não se dão bem, se agridem verbal ou fisicamente, perderam o respeito um pelo outro, mas uma das partes não consegue se afastar ainda que esteja sendo muito prejudicada com essa relação. Neste caso também existe uma dependência afetiva, porém, mais evidente do que no exemplo anterior. Esse é o caso em que as pessoas costumam identificar mais claramente o dependente afetivo. 

Em algumas situações, as pessoas se submetem a humilhações, agressões físicas e condições afetivas degradantes em prol de uma relação a dois, quando na verdade elas se mantêm nessa situação mais por dependência emocional do que unicamente em nome do amor que dizem sentir.

ATENÇÃO: Não se exclui o amor da situação de dependência afetiva. Os dependentes afetivos estão nessa situação, mas também amam. Porém, esse amor é transferido de maneira equivocada e exagerada em relação ao outro. Não devemos interpretar as coisas ao extremo, como em dois polos opostos, considerando que aonde há dependência afetiva não há nenhum amor. O que há é um amor mal direcionado, isto é, a pessoa direciona o seu amor próprio que deveria ser dado somente a si mesma, ao outro.

Lembrando que existem graus variados de dependência afetiva. A maioria dos dependentes afetivos não se veem como tal porque eles acham que apenas amam e gostam muito do seu par. "Não sou dependente, eu realmente amo muito ele(a)..."

A dependência afetiva esconde uma baixa autoestima, níveis de insegurança, fragilidade do ego, dificuldade elevada em lidar com a rejeição, medo intenso da solidão, entre outras possíveis razões.

Como saber se eu tenho dependência afetiva?

Analise essas seguintes perguntas:
Você consegue se imaginar sozinho, sem essa pessoa que convive ao seu lado?
Você costuma ter dificuldades em tomar decisões sozinho?
Quando um relacionamento é rompido você sente necessidade de procurar alguém logo para não ficar sentindo nenhum incômodo emocional pela separação anterior?
Você estrutura a sua vida em torno da vida do outro?
Você faz planos para si mesmo, ou apenas planos para o casal? (Exemplo: você faz planos pessoais, de cursos, de aperfeiçoamento profissional para si mesmo, ou apenas planos que incluem o casal? Você tem metas pessoais e subjetivas para atingir?)

Identificada a dependência afetiva, a pessoa deve procurar fazer uma psicoterapia para entender seus mecanismos comportamentais de escolha, quais sentimentos prevalecem sobre seus relacionamentos, causas e razões para a dependência. O psicólogo trabalhará a autoimagem e o autoconceito da pessoa de forma a reestruturar sua autoestima.

Algumas pessoas consideram muito difícil amar alguém e não se sentirem dependentes afetivamente delas, entretanto, tenho algo a dizer a respeito: ainda que alguém seja maravilhoso na sua vida, que a presença dessa pessoa seja muito agradável, ainda que você vá "ao céu" com seus beijos e abraços, ainda que seja a melhor sensação e companhia que você já viveu na sua vida,  ainda que você queira viver o resto da sua vida ao lado desse alguém, e ainda que você sofra só de imaginar a falta que essa pessoa lhe faria, não sobrecarregue esse alguém com o peso emocional que lhe cabe, ou seja, não dê a ele o peso de te fazer feliz sozinho. Em outras palavras, não seja DEPENDENTE afetivamente de ninguém. Seja parceiro, seja companheiro e amante, mas não dependa o melhor de suas emoções em favor da presença de alguém.

E viva a leveza da liberdade emocional, de cada um carregar somente a si mesmo e, claro, com o desejo no coração de fazer seu amado mais feliz ainda. 

Mileni Barros




---> Leia também: As diferentes formas de amar.


 















4 comentários:

  1. Mt bom,te faz reavaliar o relacionamento. Amor ou dependência?

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  2. Sim, Greicy Kelly. Realmente é para pensarmos.
    Muito obrigada pelo seu comentário.
    Visite-nos sempre!
    =)

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  3. Me fez lembrar de uma namorada que eu tinha. Acho que na minha vida nunca foi tão difícil terminar um namoro como esse foi. Eu terminava e voltava várias vezes,mas nao era o que eu queria. Eu só não era ciumento, era ela que era. Hoje eu entendo que eu era dependente ou co-dependente emocionalmente. Ainda bem que passou. parabéns pelo texto.
    Rafael

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    1. Olá, Rafael. Muito obrigada pelo seu depoimento! Realmente, alguns casais de namorados passam por esses rompimentos e muitas vezes reatam ainda que as coisas não estejam boas, ou não tenham sido totalmente acertadas. Você falou muito bem ao citar a co-dependência afetiva. Da dependência de estarmos com alguém que nos sufoca e algumas vezes rouba a nossa paz. Também é um nível de dependência emocional. E é como eu disse, existem graus variados, ou seja, níveis de intensidade diferentes para esse tipo de dependência.

      Abração.

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